Quinta-feira, 13 de Agosto de 2020
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Um gato que nos fez ver a Deus

Publicada em 28/06/20 às 14:38h - 63 visualizações

por Francisco Nery Júnior


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 (Foto: ALPA, e da net)

Prestando bem atenção, não temos uma eufonia no título. Temos uma cacofonia. Os sons, leitor, como que se atropelam e os ouvidos reclamam. Até tentamos preposicionar o objeto [direto]. Fica assim, porém, porque só assim exprime o que nos vai na alma.


Um gato, um simples gato, velho e doente, cambaleante das pernas, nos apareceu. Há cerca de dois meses, na porta do quintal, nos apareceu. Nós o alimentamos. Por que não? Para isso ele nos caiu na nossa porta. E pela porta dos fundos, o velho e alquebrado gato nos entrou na alma.


Ao abrir a porta pela manhã, lá estava o nosso hóspede de honra a nos assegurar, com a sua frágil condição, a presença de Deus. Ainda bem que Deus é Deus dos fracos – e humildes de coração. São eles que nos confundem, dizem as Escrituras. O gato nos enchia de alegria e de prazer ao lhe servirmos o que Deus nos encomendou. Ele era parte da criação. E, como parte dela, carecia de assistência e compreensão. O gatinho amarelo passou a ser parte integrante da nossa vida diária.


Tínhamos o máximo de cuidado com Otta, nosso cachorro de longa data, que não queria acordo nem consegue entender o nosso arrazoado. Ele veio e se estabeleceu para ser inimigo dos gatos e assim cumpria o seu papel. Tentei várias vezes convencê-lo do contrário para me decepcionar a cada vez. Otta o odiava de um ódio mortal como alguns odeiam certos preceitos de Deus. Ainda tinha Cindy para ajudá-lo na tarefa, Cindy, a minha nora canina que nos visita a cada dois ou três dias para alegria de Otta. Felizmente, não conseguiram destruir o nosso hóspede-amigo.


Ele já chegou alquebrado. Velho e doente, não esbanjava vigor. As suas forças já se tinham esvaído na quase totalidade. Marchava lenta, mas decididamente, em direção à porta dos fundos. Queria comida e em troca nos dedicava amor e doçura.

Já na reta final, desapareceu por seis ou sete dias. Conformados com os ditames da criação, nos resignamos à sua memória. Que havia sido feito dele? - conjecturávamos. Apodreceu em algum canto sombrio? Serviu de comida aos urubus? Encheu mais um pouco a lata de lixo de alguma casa próxima?


De repente apareceu. Magro e remelento reapareceu. Surgiu na frente de Otta que, sem se fazer de rogado, mostrou os dentes. Tive tempo e reação suficientes para conter Otta que teimava em pegá-lo. Tentamos alimentá-lo e insistimos para que bebesse um pouco d’água. Sem sucesso tentamos.


Recolhido em um dos cantos do quintal, abrigado em um antigo refúgio de cágados, pacientemente esperou o seu destino. Fiz-lhe alguns agrados a afagos. Na última vez, simplesmente me lançou o seu olhar de morte. Baixou a cabeça... e entregou-se à eternidade!


Claro que choramos a partida de um simples animal que se fez nosso amigo muito mais pelo seu papel na criação que pelo reles punhado de ração felina. Os amigos, Deus nos dá. Chegam e enriquecem a nossa vida. E partem deixando um vazio difícil de superar.


Nós o colocamos em uma caixa de sapatos. As flores do nosso jardim o acompanharam na sua derradeira viagem sideral. Baixou à sepultura, no nosso jardim, banhado nas nossas lágrimas. Nos deixou mortos de saudade, o que compartilhamos com os nossos leitores que sabem jamais perder a ternura. Os fatos simples da vida tornam grande a História.


O final? Mais comprometimento com o próximo, com os amigos e com a Natureza. Foi a mensagem e o legado que nos deixou um velho e experiente gato mandado por Deus.

Francisco Nery Júnior 


ATENÇÃO:Os comentários postados abaixo representam a opinião do leitor e não necessariamente do nosso site. Toda responsabilidade das mensagens é do autor da postagem.

2 comentários


F. Nery Jr.

02/07/2020 - 12:27:46

Caro Edson, seu comentário, redigido com maestria de amante do português, exagerado em meu favor, me encaminhou para a pesquisa mais aprofundada do Fernão Capelo. Já contactei a minha assessora digital para solicitar a remessa de um exemplar, dessa vez em francês, para matar dois gatos de uma paulada só. Como os outros colegas, você enriquece a Academia.


Edson Barreto

01/07/2020 - 11:17:12

Meu caro amigo Professor Nery, magno poliglota, que, na magia das palavras usadas para fazer crônicas, simplesmente encanta os leitores. Neste texto: "Um gato que nos fez ver a Deus", o inicio se dá em um embate com a gramática da língua portuguesa (a Última Flor do Lácio, como intitulou Bilac) e nos comove com a história de um gatinho que nos deixa lições de sentimentos, saudades, dor, tristeza, pois, indefeso e faminto, lança um legado que marca a sua existência como criação de Deus. Recomendo aos que virem este comentário, a leitura de Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, que em sua maestria nas letras, tal qual a de Francisco Nery, nos mostra a lição de uma gaivota que deseja superar limites para não vivenciar o tradicional de sua espécie. Amplexos!


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